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Quando a passarela vira palanque – Por Fernando Alencar

O Carnaval carioca sempre foi, por definição, um espaço de crônica social. Das críticas ácidas aos governantes às homenagens a figuras históricas, a Sapucaí é o termômetro do Brasil. No entanto, o recente desfile da Acadêmicos de Niterói, com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, acendeu um alerta que ultrapassa a estética artística: até onde a festa popular pode ser utilizada como ferramenta de pré-campanha sem ferir a ética e a legalidade?

A polêmica não reside na liberdade de expressão da escola, mas na conveniência do momento e na estrutura que envolve o espetáculo. Ao escolher homenagear o atual presidente em pleno ano eleitoral, a agremiação fluminense abandonou o sutil campo da homenagem histórica para entrar na arena perigosa da propaganda antecipada.

O desfile não se limitou a contar a trajetória de vida de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao levar para a avenida representações do Judiciário e críticas diretas à gestão anterior — incluindo alusões negativas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à condução da pandemia —, a escola deixou de ser uma contadora de histórias para se tornar um braço de marketing político.

Quando uma agremiação utiliza recursos públicos (diretos ou indiretos) para exaltar um candidato e demonizar seus opositores a poucos meses do pleito, o “julgamento técnico” pedido pela escola em nota oficial torna-se secundário diante do julgamento ético da sociedade.

A nota pública da Acadêmicos de Niterói, que denuncia “perseguições” e “ataques conservadores”, tenta colocar a escola no papel de vítima. Todavia, é preciso questionar:

  • A Autonomia Artística: Pode uma escola reivindicar autonomia total quando o enredo flerta diretamente com o favorecimento eleitoral?
  • O Papel do TSE: Embora o Tribunal Superior Eleitoral tenha evitado a censura prévia, o alerta dos ministros é claro. A linha que separa o enredo biográfico da peça publicitária é tênue, e a Niterói parece ter atravessado essa fronteira com convicção.
  • A Presença no Camarote: A imagem do homenageado assistindo à sua própria exaltação ao lado de figuras políticas reforça a tese de que o desfile serviu como um evento de lançamento de imagem, financiado e estruturado sob o manto da cultura.

O argumento de que “o amor venceu o medo” — slogan utilizado pela escola e que remete diretamente a campanhas do PT — confirma que a politicagem fincou bandeira no samba. Não se trata de perseguição a um espectro político específico; o mesmo rigor deveria ser aplicado se o enredo fosse uma ode a qualquer outro candidato de qualquer ideologia.

O Carnaval é uma manifestação grandiosa demais para ser reduzida a um jingle de 80 minutos. Ao permitir que a “politicagem” dite o ritmo da bateria, corre-se o risco de transformar o maior espetáculo da Terra em um mero horário eleitoral gratuito, pago com o imposto de todos — inclusive daqueles que não desejam ver a passarela transformada em comício.

O samba deve ser livre, mas a democracia exige que o jogo seja limpo. E, neste desfile, o que se viu foi uma clara tentativa de driblar a lei sob o brilho das lantejoulas.

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TV Diário do Sertão